Sentado ao lado, movimentava as pequenas peças frágeis de vidro sobre
o tabuleiro de xadrez que são seus próprios pensamentos, quando ela
chegou, nem finalizara um roque. Uma pergunta o interrompeu:
- Que música é essa?
Ele parou um instante, virou lentamente a cabeça até ela sem nem mesmo
olhar para o seu rosto molhado da chuva, voltou a sua cabeça para dentro do umbigo e continuou a olhar o vazio. Ela perguntou:
- Amor, ta acontecendo algo?
E ele responde com ar de fim de assunto:
- Chopin.
Ela inquieta-se por dentro sem ousar dar mais um passo a frente. Não sabe o que existe, não sabe o que irá enfrentar, está despreparada e não tem armas para usar naquele instante. Ele olha mais uma vez, responde vazio palavras que não são compreendidas e nem emitem som e novamente, abaixa a cabeça olhando o chão com tristeza num olhar que parece não saber para onde olha.
Ela percebe que aqueles olhos estão perdidos, observa uma gota espremer-se deles e pular em queda livre ao chão, percebe mãos frágeis que já não fazem nada, um silêncio nas pernas, ela enxerga um animal vencido pelo medo a tal ponto que não tem mais medo, apenas espera que algo o aconteça. Súbito, uma frase interrompe a cena.
- Está tudo bem, só queria ouvir música.
Demorara tanto a responder, mas fora belo o sorriso bobo que acompanhava a segunda oração, “só queria ouvir música”. Ela já tinha esperanças e percebeu uma brecha para chegar mais perto. Ele ainda estava com a mesma roupa que o vira 30 minutos atrás e ela não poderia perder a oportunidade para aproximar-se:
- Estão esperando o “homem dos discursos”. Estão todos lá embaixo, a Carmen e o Léo esperam ouvir algo de você essa noite, como você sempre fez, não deixaria de fazer no casamento de sua filha. O que olhas pelo vidro?
- A cidade, a cidade com seus pequenos prédios cheios de luzes é tão estranha. Sabia que existe um botão que resolve todos os males de um homem? Eu pensei em apertar ele hoje, não sei, ainda estou com o dedo ao redor.
- Mesmo? Que botão é esse?
Apenas um novo olhar respondia, dessa vez mais sério, depois a resposta de quem esconde suas verdades:
- Nada não, besteira.
- O que você está bebendo?
- Não bebi ainda. Já estou descendo, se eu não descer em 20 minutos, por favor, peça para o Maciel, somente o Maciel, vir aqui falar comigo.
Ela vai até a porta e antes de atravessá-la pára um instante para olhar atrás e dar um suspiro, voltando-se liberta o que tinha dentro do peito.
- Eu também vou sentir falta de Carmen, mas é preciso saber – respira – é preciso saber que ela tem que seguir a própria vida, todos têm o direito de amar e eles se amam tão lindo. Acha que não fiquei triste? Eu chorei ontem a noite toda, fui para a cozinha, não queria que você percebesse. Amor, independente de qualquer coisa, você é e sempre será o homem da nossa vida. Estou te esperando.
Ele solta o copo em cima da pequena mesa ao seu lado entre lágrimas e consola o coração da sua esposa:
- Eu estou indo, por que você está tão molhada?
- Fui te procurar lá fora – entre risos – nem sabia mais onde te achar, você deu realmente um nó em todos nós, estamos esperando, faça o melhor discurso da sua vida.
Enquanto ouve os passos cada vez mais longe ele abre o paletó e pega o charuto, fuma aquele charuto como se saboreasse uma mulher. Depois pega o copo e leva até a boca pensando nos enganos da sua esposa e que a sua tristeza nada tem haver com o casamento, mas é apenas uma carga pesada que carregara toda a sua vida inútil e agora tentava se desvencilhar. Não bebe, lembra-se que falou que estria descendo.
Nesse momento, levanta seu corpo cansado da cadeira que demorou a conquistar, joga o veneno que estava todo aquele instante no copo sobre a pia e ajeitando a gravata sorri imaginando como iniciará o seu próximo discurso.
Do saguão do prédio as palmas interrompem o que os homens chamam de noite, talvez tenha sido o melhor dos seus discursos. Do longe ouve-se uma voz dizer “esse é o velho Otávio, não perdeu o jeito”.
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