Segunda-feira, Dezembro 29, 2008

Reencontro

- Segundo dia aqui Carlos e já é o terceiro fora que você leva, os homens franceses são bem melhores que vocês de Portugal , viu?

- Ah Pareta, essas mulheres daqui que não sabem o que querem. Olha, logo a frente fica a Pont D’lêna

- Belíssima, Carlos, eu to amando a França.

Eu olhava tudo aquilo e sentia uma saudade de casa, mas ao mesmo tempo uma sensação de realização, havia lutado muito para estar ali e tinha que aproveitar cada momento. Eu ficava parado olhando a água, sentindo o ar do ambiente, as pequenas embarcações passando abaixo de mim, os músicos ciganos que passavam tocando violão, o ar gostoso e arborizado dessa terra, era um ambiente gostoso de sentir, até que Carlos interrompe os meus pensamentos.

- Pareta, olha que coisa maravilhosa...

- Nem vou olhar Carlos, pra você não ter a vergonha de eu contar quando voltarmos a Portugal.

Fiquei observando os barcos desancorando e as pessoas entrando nele, uma pequena senhora que eu já tinha visto umas três vezes, carregada de mala entrava em num dos navios. Não sabia se estava curtindo o momento ou se estava apenas controlando a ansiedade de conhecer a Torre Eiffel, um momento único estava a minha frente, poeticamente mágico, dois meses atrás eu tinha lançado meu livro em Portugal e essa viagem me concedeu o privilégio de conhecer lugares incríveis.

- A poesia está vindo Pareta. Vestida com uma blusa branca e de Jeans, segurando uma bolsa no lado esquerdo e com aqueles chapéus que tentaram te vender caríssimo quando chegamos aqui – fala o Carlos com tom de riso.

- Novamente nem vou presenciar esse outro fora, vou voltar pra casa sem inspiração desse jeito de tanto fora que você tomou hoje Carlos. Aliás, você não tem jeito, você só faz tomar fora. Devia entrar pro Guinness Book, o pior chavequeiro de Portugal.

-Pareta, a mais bonita ta olhando pra cá, são três.

- Deve estar olhando o mar, Carlos.

- Não, está olhando pra nós.

- Deve estar pensando num jeito de te sacanear então – falo rindo – você já deve ter cara de “mamãe me dê um fora”. Sinta o ambiente Carlos, veja que dia maravilhoso, que lugar lindo, ouça os pássaros que cantam essa manhã, as mulheres são apenas parte do encanto dessa tarde, mais um traço desse quadro magnífico...

No meio da frase, uma voz feminina e familiar corta os meus pensamentos.

- Pareta! Você por aqui? Não acredito! Que veio fazer tão longe?

Parece-me que a Torre Eiffel não foi a única surpresa do meu dia, aquela voz eu reconheceria mesmo se levasse 100 anos sem ouvir. Sim, era Gislene, e tínhamos uma longa história, ela foi uma das melhores amigas que já tive, lembro-me que estudamos programação junto, ela me ajudava também no inglês quando eu estava iniciando, treinávamos espanhol, tocamos violão junto na despedida de amigos nossos e ela conseguiu me fazer derramar lágrimas quando estava indo ao Canadá.

Um abraço forte de quem se encontrava depois de mil anos traduzia tudo o que sentíamos ao nos reencontrar, embora convivêssemos tão pouco tempo pessoalmente era como se eu tivesse crescido junto com ela. O Carlos só sorria e olhava para as duas amigas dela, que também estavam contagiadas com aquele momento, mas o Carlos estava contagiado com outra coisa.

- Menina, nunca pensei em te ver aqui, você não estava no Canadá?

- Foi uma viagem de férias, antes de passar no Brasil eu vim aqui, e você Pareta?

- Eu lancei um livro aqui em Portugal e o Carlos veio me mostrar uma parte da
Europa. Ai eu vim matar a saudade de ver a torre Eiffel, vocês já viram?

- Nós acabamos de conhecer, mas estávamos até com vontade de voltar lá pra ver de novo a vista de lá de cima.

O sorriso de Carlos era do tipo “vamos ver a Torre agora” e mostrava tudo que tinha na cabeça dele. Nunca vi ele se entrosar tão rápido com uma pessoa o quanto tinha se entrosado com as amigas de Gislene. Atravessamos a ponte e estávamos ali em frente a torre, para conhecer cada pedaço. Minha grande amiga que visitou com o guia turístico tinha gravado cada informação sobre a torre e me surpreendia a cada momento, acho que o guia se envergonharia diante da explicação dela.

A Torre Eiffel é um lugar maravilhoso, nos dá uma vista belíssima, além da sua arquitetura sem igual é cercada dum ambiente paisagístico fantástico. Ficamos conversando e relembrando velhas coisas até o sol se pôr, sentados em uma praça ali perto, era muito gostoso ter um pouco do Brasil perto de mim novamente ao ver essa grande amiga que tantas histórias passamos juntos. Lembrávamos do grupo, das coisas engraçadas que as meninas faziam, das coisas bizarras que acidentalmente aconteciam, dos momentos pequenos que foram eternizados, das pessoa que não cuidamos o tanto quanto podíamos, dos pequenos que já estavam grande, dos amigos que já se foram e nunca mais voltarão, dos shows, das festas, dos momentos tristes e dos momentos de êxtase de alegria. Foram alguns anos equivalentes a uma vida.

Os luais, as noites perdidas, as brincadeiras, por vezes vinham lágrimas nos olhos, na verdade estávamos com saudade de tudo aquilo, se soubéssemos antes viveríamos um pouco mais tudo e todos, daríamos mais atenção, cada um de nós teve do que se arrepender, de ter feito ou de não ter feito, de não ter vivido, de não ter prestado atenção e ansiávamos o momento de rever, de reviver, de reencontrar com todos os nossos amigos juntos.

Gislene foi ímpar como todos os amigos de verdade e na hora dela partir eu segurava suas mãos, como se uma irmã minha estivesse partindo e eu fosse implorar pra ela ficar, ela continuava a mesma jovem linda e cheia de energia que conheci, a mesma educação, o mesmo jeito doce e maravilhoso, eu nunca esqueci quem ela era, não esqueceria mesmo se ela não existisse. É como aquelas pessoas que nossos pais nos contam nos casos da sua infância que nem sabemos quem é, mas de tanto ouvirmos falar o conhecemos com se fossem nossos tios. Foram tantos os personagens da vida da minha mãe que eu só vivi experimentando suas memórias, as memórias da minha avó, de tantos outros que conheci, e as minhas memórias de Gislene estarão com meus netos, eles saberão que nunca conhecerão uma pessoa assim, vou mel lembrar de dizer “ela era como eu nunca vi igual e nunca verei”, pois é o que sinto em mim.

Tínhamos que pegar a condução até o hotel, eu teria um evento no dia seguinte e Gislene estava na data de voltar ao Brasil, foi lindo o que aconteceu e triste o curto tempo que durou. Ela se surpreendeu quando mostrei no livro que tinha mais de dez poemas dedicados a ela e tantos outros, para aqueles que passaram em nossas vidas numa união e força que somente nós entenderíamos o que as palavras diziam, ninguém mais sentiria o sabor verdadeiro daqueles versos. E assim, a lua separou mais uma vez nossas vidas. Voltei pra Portugal, com uma saudade apertando o peito, e a história do Carlos que namorou a ruiva carioca que era amiga de Gislene.

3 comentários:

Cláudia disse...

Vc é tão cuidadoso com cada detalhe, que deixa tudo perfeito. Amei!
Bjão pra vc!

Anônimo disse...

Tá mara! amei...

Gil disse...

aeeeee, qualquer dia desses a gente se bate por lá mesmo :DD
ótimo conto!
grande abraço